Inimigos íntimos

2 de abril de 2011 § 1 Comentário

Juliete Lunkes

O que para a maioria das mulheres é considerado apenas uma incômoda rotina mensal, tornou-se um verdadeiro pesadelo para Fernanda Flores. A jovem de 15 anos nunca teve problemas em seu período menstrual, até que ano passado veio a surpresa: uma reação alérgica ao absorvente. O mesmo que sempre usou, desde a primeira menstruação.
Apesar de estranhar a situação, Fernanda logo supôs que a alergia pudesse ter sido causada pelo absorvente. “Então eu fiz um teste. Usei só absorvente interno durante um período menstrual e no outro usei só o normal. Com o interno não aconteceu nada, então passei a usar só ele, nem cheguei a consultar um ginecologista”.
A alergia, ou neste caso especifico, a dermatite de contato, é uma inflamação na pele que ocorre após o contato direto com produtos ou materiais irritantes. No caso do absorvente, são inúmeros os agentes que podem provocar reações alérgicas em peles hipersensíveis, sejam fragrâncias, algodões, géis de absorção, fibras ou películas plásticas.
Entre as reações alérgicas causadas pelo uso do absorvente em mulheres com hipersensibilidade na pele estão ardência, vermelhidão e coceira. A alergia surge já no primeiro dia da menstruação, com o uso do primeiro absorvente, e só desaparece alguns dias após o fim do período menstrual. “Como eu ainda não fui consultar, não sei o que exatamente causa a alergia, mas acredito que em mim deva ser o algodão. Irrita, sabe? Tipo criança quando fica assada da fralda”, explica Fernanda. Mas há casos ainda mais incômodos, em que a alergia aparece também com o uso do absorvente interno.

Nesses casos, entre as alternativas para tornar o período menstrual menos torturante, algumas mulheres partem para o absorvente ecológico, feito com tecido de algodão hipoalergênico. O absorvente ecológico, inclusive vem sendo defendido por grupos de ambientalistas, por ser lavável, reutilizável e biodegradável, bastando deixar de molho na água por algumas horas, sem o uso de produtos químicos, para que fique limpo. Há também marcas que produzem absorventes descartáveis hipoalergênicos, mas o preço (custa em torno de R$15,00 um pacote com 10 unidades) e a dificuldade de encontrá-los acabam excluindo o produto como uma opção viável.

 

Quando o látex também é vilão
Para descobrir qual dos componentes químicos de um determinado produto é o causador da irritação, são realizados testes de contato através de uma bateria de materiais químicos até que algum deles cause a reação alérgica positiva. De acordo com o médico alergologista Luiz Jobim, o afastamento do componente químico da vida do paciente costuma eliminar a alergia, mas não existe cura. Toda vez em que houver contato com o produto, a reação alérgica voltará.
Com mais de 30 anos de experiência na área de alergia e imunologia, Jobim diz possuir mais familiaridade com dermatites causadas pelo látex do que aos componentes químicos presentes no absorvente. “Minha experiência é mais com alergia ao látex do preservativo. Os ginecologistas costumam ter mais experiência com outras substâncias íntimas”. O médico já participou, inclusive, de um simpósio sobre alergia ao látex em Porto Alegre há três anos. No evento, Jobim falou sobre como investigar a alergia ao produto.
Calcula-se que a hipersensibilidade ao látex da camisinha seja um problema que afeta de 1 a 5% da população. A reação alérgica, que pode combinar vermelhidão, coceira, inchaço e até feridas na região do pênis ou da vagina, pode surgir já durante o uso da camisinha, porém, costuma aparecer ou ficar mais intensa horas após ela ter sido retirada. Mas, além do látex, há ainda outros agentes que podem causar a reação alérgica ao preservativo. Pigmentações coloridas, espermicidas, lubrificantes e aromatizantes também podem ser os causadores da dermatite, e, nesse caso, são descobertos através dos testes de contato.
Se o problema for mesmo o látex, o dilema é semelhante ao dos absorventes. Preservativos hipoalergênicos – que contêm poliuretano ao invés do látex em sua composição – podem ultrapassar o valor de R$ 20,00 uma embalagem com três unidades, além de não serem tão facilmente encontrados quanto os preservativos comuns.


Orientações médicas
Para a ginecologista Maria Paula Ostt, tanto a alergia ao látex quanto a ao absorvente são mais comuns do que se imagina, e, como ocorre com Fernanda, nem sempre a ajuda médica é procurada. “Já atendi pacientes que apresentam tanto a alergia ao absorvente como ao látex do preservativo, e é um problema comum, mas realmente pouco comentado.” Segundo a médica, a maioria das pacientes tenta resolver sozinha a questão, sem procurar um especialista.
Quando procurada, a ginecologista inicialmente busca dar orientações para que o problema seja resolvido. No caso do absorvente, a sugestão é que se evite usar os de textura grossa e os perfumados, dar preferência aos com malha seca e trocá-lo várias vezes ao dia. No caso dos preservativos, a recomendação imediata é substituí-los pelos que não contém látex na composição. “No entanto, se não obtivermos uma resposta positiva, encaminho ao alergologista para que faça um teste para ver o que está causando o processo alérgico”.
Maria Paula Ostt afirma que normalmente, as pessoas já nascem com a hipersensibilidade a determinados componentes químicos, porém, como no caso de Fernanda, é possível que a alergia se desenvolva ao longo da vida. “Não é o mais comum, normalmente a paciente sempre teve a alergia, mas pode vir a desenvolver mais tarde”. Entretanto, em qualquer um dos casos e independente do tipo de reação alérgica em áreas íntimas, a procura por um especialista é indispensável.

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